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Isli Melanie
  • 30.11.18 / 
  • Crônicas

insônia é mal dos que bebem pouco

Coisa mais louca de que me lembro é você cheirando aquele sabonete de romã. Parecia que comeria aquilo com o nariz. Rod-cachaça de patrão, no banco de trás, e você no carona. Vivia mal e tal e morreu. E ponto. Final. Ali, ninguém com rosto de normalidade, de esperanças vagabundas que vagueiam manhãs. Angústia, dois Ramos de Graciliano vezes paz. Neblinava que não se via. Jaqueta de couro ensopava. Não dava para parar. Não sei descrever o que senti, extremo oposto à efervescência. “Não eu”; respondeu. Chegou à casa. Triste. “Não eu; a casa que era triste”; emendou. Havia um bicho-pau imóvel no portão. Queriam matar o bicho, porque era estranho. “Não eu”; replicava-se agonia.

Tudo poderia ser maravilhoso. Desde que você fosse privado de tudo. Se não se tem nada, o que mais? Ou se entregassem tudo a você, por exemplo, você viajaria, deliraria, provavelmente por seis meses ou dois anos. Depois enjoaria. Não existe mesmo consenso a respeito de nada. Não tínhamos densidade para estar na estrada. Informação chega sem aviso prévio, mas conhecimento é do tipo clássico, consulta disponibilidade, agenda visita, detesta ser indesejado. Arbitrariedade não dialoga. Cena mais sexy de que me lembro é você cheirando aquele sabonete. Parecia a Sinfonia do Novo Mundo, de expectativas enganosas.

Leio o mundo nos olhos das pessoas. Por isso evito o olhar direto. Olho para baixo e escuto o que queiram contar, escuto, elas contam. Quando olho, discricionariamente ajo, descubro mais. Sinto-me errada por saber mais do que quereriam que eu soubesse, por ter lido e ter descoberto. Eu sabia. (Gosto de contar aonde vou, porém não conto o que sinto. Em consílio, falam muito. Bestas asfixiadoras.) O que há de concreto é o que se abstrai. No conjunto, mora o milagre. Na abstração, o concreto, cimento do que se é, identificação da porosidade dos solos. O suicida, por exemplo, o suicida. Eu que quase morro com alusão ao paralelo da morte e o suicida, por exemplo, você, transversa-a. Não quero querer pequeno miúdo, nem grande astronômico. A vodka ucraniana sobre o piano. Nada se encontra. O piano paralela. 

O caos é a rotina com os miolos estourados na calçada. Ensandecido a sair, matou-se na madrugada. Fuzuê nas adjacências. Você com a cabeça estourada. Tinha maneira sofisticada de falar, de falar o feijão com arroz, com alento. “Insônia é mal dos que bebem pouco”; dizia. Ou “um carinho bem feito amarra mais do que macumba”, “amar é bom-mocismo”. Ainda que o homem-livre não exista, posso reconhecer seu empenho historicamente. O passado decomposto aduba a vida. Sobra eco.

 

isli melanie

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