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Isli Melanie
  • 26.10.17 / 
  • Crônicas

O ciclo da água

Por um triz perderia o garoto para o solo. As goteiras na sala de aula pioravam. Mariana percebia que estava a cada segunda-feira mais distante daqueles meninos. Os fins de semana nos quais viajava para Belo Horizonte duravam até quarta-feira no pensamento. Foi mesmo por um triz que não perdeu o garoto. Levou a criança para seu lugar e, sem dizer palavra nenhuma, olhou-o nos olhos, fez aquele sinal de quem pede silêncio com o dedo na frente dos lábios. Carlos olhou de volta assustado com a inesperada cumplicidade da professora. As demais crianças sentiram medo. Ela ensaiava sorriso discreto para acompanhar seu semblante placidamente perdido. Naquela manhã de segunda-feira, assim como faria Carlos, seria capaz de saltar pela janela. Fechou as enormes vidraças da sala e apagou o ciclo da água que havia desenhado no quadro. Encarou a turma com sorriso já definitivo.

Quando ainda era criança, Mariana estudava o ciclo da água nas aulas de ciências de outra escola municipal. Duas professoras deixaram lembranças. Dina, cujo nome era engraçado para as crianças, e Conceição, que lutava contra a rebeldia dos rapazes repetentes alojados erroneamente entre os pequenos da terceira série do turno da tarde. As cadeiras ficavam emparelhadas, sentava-se ao lado de uma menina magra. A amiga não tinha cadernos como os de todos. Ela escrevia as contas da matemática e desenhava o ciclo da água em folhas de papel branco que ela levava grampeadas. Elas copiavam os desenhos que a professora Dina fazia com toda a propriedade no quadro negro. Dina poderia ser desenhista; tinha talento para o desenho. O difícil para a menina magra é que as folhas que ela levava para a escola não eram pautadas. Ela pedia a ajuda de Mariana para desenhar as linhas. Somente depois que a tarefa fosse feita é que a amiga poderia começar a escrever. Isso unia as meninas e, certo dia, Mariana passou ir à escola sem seu tradicional caderno e com um maço de folhas grampeadas igual ao da amiga. Conversavam enquanto pautavam seus improvisados cadernos antes das aulas.

Passaram-se vinte anos. Não aprendera a desenhar tão bem quanto Dina. Não lutava contra a rebeldia dos alunos como Conceição fazia, diariamente, com os seus. A menina do caderno em branco sumira no mundo escuro. E todos os dias em que havia chuva acontecia o ciclo da água que estudara nas aulas de ciências. Aí viria o sol e enxugaria tudo e levaria lá para cima. Outro dia iria chover toda a chuva que estava guardada na nuvem desde aquele dia em que o sol secara o molhado do seu pé e armazera água no céu.

Chovera o mês inteiro no Rio de Janeiro. Por algum tempo, naquele dia, ficara observando o fenômeno. A chuva caindo e a certeza de ver o ciclo acontecendo. Pela manhã, havia chovido, a chuva havia molhado o chão de novo. O sol ainda não tinha vindo, desde o dia anterior. Não se sabia se ele viria no dia seguinte ou nos dias que se seguiriam, mas a chuva não pensava nisso. A chuva tinha a certeza do ciclo. Uma hora o calor invadiria a terra, transportaria a água para cima de volta. A chuva não pensava nisso. Jogava-se ao chão, doando-se toda. Era amor de chuva. Quando criança, estudaram o ciclo da água nas aulas de ciências da escola municipal. Desenharam-se linhas, pingos, matemática, ciclo. Por fim, entendera tudo a respeito do ciclo da água. Entendera o que é amor de verdade. Amor de verdade é amor de chuva.

 

isli melanie

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