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Isli Melanie
  • 07.11.17 / 
  • Crônicas

tateia, mas não toca

Acordei-me outrora tímida de estar comigo mesma; não me podia encarar no espelho do silêncio. O Eu, congelado. Nem mosquitos zumbiam. Ainda tão escuro que parecia ontem. Minha parte preferida do dia vem sendo a manhãzinha; e descubro o que começa antes do começo. Corro porque não se tem muito tempo ao passo encadeado ao da Terra. Era feriado bonito de São Pedro na cidade. Degenerando o dia, nenhuma das revoluções me esperava. Aos critérios de exclusão, continuo vulnerável. A vida da mulher viva não vale o que valeria. A vida vivida aprisiona o valor das palavras; que passam a valer o factual, abdicam-se do possível. Luz da manhã, eu sorria mais do que uma ring girl. O melhor da vida é restrito à passagem do tempo. Se aceitássemos isso, não competiríamos por mais nada, senão por mais tempo. Do chão ao topo; e reverso: o fim. O tempo do tempo é a luz. No escuro, é lento.

A alegria socializa-nos. A dor é solitária. Ninguém gosta de acompanhar os tristes. Os tristes são chatos. Decidida a agir por antecipação, eu amo. Melhor recurso, melhor manobra. Caso nada dê certo, pelo menos levo isso. Se bem que o amor é mais. Ser otimista é acreditar naquilo que poucos acreditam. Acreditar no que a maioria acredita é cômodo. Otimismo, cá entre nós, trata-se de labuta. Vi uma menina com frio, sutiã de renda vermelha, minissaia colada, mãos à cintura, sorriso branco. Prostituta na chuva, no frio, menina. A natureza do poder não é turística, não se deseja apenas visitar o poder e depois, gratuitamente, retornar ao servilismo com fotos e souvenir histórico. A quem não tem guarda-chuva, não simples se compreenda que os dias de chuva são os melhores. Não se vive de realidade, mas de eventualidade. Eu cozinharia um jantar, à menina, gastaria meu damismo e ouviria suas histórias. A história de vida das pessoas é larga, elíptica. O que se vê é o horizonte e não o todo – planetário. Por isso, quem sabe por isso, eu amo. Não creio que aquele que diga “o amor acabou” tenha sequer se iniciado na atividade de amar. Amor, que é amor, cresce mesmo na contramão de sua encenação diagnóstica, fofurinhas, leros e leros com os quais filmes e telenovelas tentam nos persuadir como representações de amor. O amor é muito mais o samba da espera do que o samba do encontro. Não dá tanto prazer assim, porque o amor também adoece. Acho que a vida é um violão de doze cordas. Somente os muito talentosos fazem isso parecer fácil, seu domínio, sua técnica, sem estrelismos. O que me mantém calma não é a certeza de ter feito tudo o que podia. Sempre pensei que poderia ter feito mais – peço perdão na humanidade dos erros. O perdão tem efeito residual, ao perdoado e ao perdoador. O perdão é experiência de aprimoramento: um carinho nos cabelos próximo a hora de dormir. Poderia mostrar, sem caprichos, o que a realidade tem de acreditável. Sou uma contadora de histórias e o original é mais forte do que a verdade.

A responsabilidade constrangeu-me. Não sou livre; falseei-me livre ante o constrangimento da responsabilidade. Não é caricioso. O seu amor por mim é como o perfume que uso. Sei que o tenho; porém não o sinto mais. À noite, enrolei um lenço no pescoço e fui me sentar sob o sereno. Minha vontade dormia feito os passarinhos que morrem no frio.

 

isli melanie

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